Um arquiteto sobre os telhados barrocos

Ele é carioca, mineiroca vamos dizer, um jeitinho levemente arredio quase desconfiado, cujo olhar maneiro se deixa escorregar mansamente sobre as coisas. Debruça-se sobre o piso, portas e janelas como se fosse um gato na façanha de se comprazer senhor daquilo, ardilosamente ocultado no meio da multidão ou simplesmente sozinho caminhando sobre o ensaboado das ruas pedregosas de Ouro Preto. Satisfeito na caça, elegantemente recompõe-se ostentando sobre o peito sua inabalável câmera 35 milímetros, ainda de filme, realizado no que qualquer habitante de Minas tem: o silêncio.

Alexandre Martins é seu nome, adepto do preto e branco, em algumas canções relembra seu pai maior, Henry Cartier-Bresson, o inesquecível Francês mensageiro de toda oligarquia fotográfica mundial, Alá de milhares de fiéis dominadores na arte de fotografar. Alexandre se identifica, mas se supera quando incorpora na sua bagagem visual o arquiteto que mora em si e que por consequência, não se ilude com o simples prazer estratificando em seus relatórios a solidez das paredes, o chão dos escravos, as igrejas. Sabe excluir também no seu dicionário do invento de Niepce, o batom da cor, o farfalhar tropicalista ensurdecedor de todo cromatismo, valorizando assim mais uma vez o silêncio do que sobrevive sinalizando o recolhimento dos monges.

Vive vasculhando de forma sacerdotal a mendicância de qualquer gesto, de uma luz presa lateralmente sobre um chafariz. Enfim, havendo uma luz rompante, certa imagem nascerá. Os bares serão revistos, o casual que não se aprece, as rezas, as sombras, os casarões e seus segredos, tudo será revelado no pouso de seus olhos.

Ele sabe como ninguém “recortar” uma cena, ou seja, subtraindo do real o que lhe interessa tentando ser discreto e respeitoso, buscando a possibilidade de reter o profundo. Se expressa e se corresponde com o mundo acercando-se da fotografia, não revelando sem pudor coisas e pessoas, mas procurando corresponder a elas. Um historiador. Não se preocupa com uma foto isolada, mas com o seu conjunto, de modo que cada série de imagens surja de dentro para fora de qualquer assunto e, que cada foto toque a seguinte e, que cada série, de alguma forma, prossiga nas subsequentes.

Sua opção pelo preto e branco lhe permite “tocar” melhor a essencialidade das coisas buscando a vida evidente e latente de cada instante. Os planos, linhas, formas e gestos se valorizam nessa razão. A fotografia vestida nessa indumentária saudosista e quimérica, especialmente realizada com filme, traduzem uma rica gama de tons embelezando melhor os grãos e de qualidade ímpar, proporcionando imagens de uma certa atemporalidade no reforço alegórico das composições e enquadramentos. Somando isso tudo, Alexandre é um profeta dos deuses do preto-e-branco, aquele que se enlaça nos vales profundos, sejam os das terras mineiras, sejam da alma.

Também urbanístico, se encanta no fascínio do fausto ouro-pretano que se bate sobre ele como um espaço dramático, palco ambulante meio mambembe onde os atores são seus habitantes. Trata-se de um fotógrafo urbano trabalhando o cotidiano da banalidade.

A mãe fotografia é quem rege hoje sua vida de artista do olhar, todas as possibilidades, razões e emoções estão filtradas nesse homem que acalanta e dorme quando não fotografa.

Walter Firmo
fotógrafo e professor.

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